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Enya: Música progressiva (2008-06-11)

Gustavo Jobim


Enya! Este nome conjura os termos "new age", "música açucarada" e outros termos um tanto pejorativos, na mente de muitos. Porém um ouvido sensível perceberá, após poucos minutos de atenção, que há muito mais na música desta compositora do que se pode supor pela (má?) fama dada pelo título "rainha do new age".

Enya começou a carreira na banda folk Clannad, ao lado de diversos irmãos e membros da família. No início dos anos 80, o produtor Ricky Ryan deixou a banda, e Enya foi junto. Roma Ryan, esposa de Ricky, se juntou à equipe, como letrista. O Clannad permanece na ativa como uma das mais importantes bandas de seu estilo; outro membro do Clannad, a irmã de Enya, Moya Brennan, também tem uma carreira solo de sucesso.

Ricky Ryan teve a idéia de criar um coral sobrepondo várias vezes a voz de Enya. Este efeito, às vezes duplicado dezenas de vezes em algumas músicas, é a base para a estética sonora da música de Enya que, enraizada na música celta, incorpora elementos de outras culturas, tudo polido com sonoridades eletrônicas (especificamente, o sintetizador Roland D-50) e forte presença do piano clássico; todos os instrumentos são tocados pela Enya, e a voz é gravada tantas vezes quanto necessárias. Em uma entrevista, ela disse ter gravado até 500 sobreposições de voz. O resultado final é uma estética muito peculiar, atemporal, clássica mas popular, etérea e celestial, que transcende barreiras culturais, e que arrebanhou milhões de fãs no mundo todo.

Quem buscar conhecer além das canções mais famosas ouvidos em volume baixo no rádio da sala de espera, perceberá, no entanto, que esta combinação de elementos musicais, acrescidos das letras poéticas de Roma Ryan, fazem com que a música de Enya na verdade transcenda o termo "new age". Há sempre um tom de misticismo e melancolia nos sons e letras, que são escritas em diversos idiomas: inglês, gaélico, latim, e no disco mais recente, "Amarantine" (2005), japonês e o idioma inventado loxian. E há sempre a presença de músicas instrumentais.

Tudo isso certamente irá agradar o ouvinte de música progressiva que queira uma sonoridade rica porém pacífica para lembrar que ainda existe algo de belo no mundo. Eu classificaria Enya não como new age, mas como autêntica música progressiva, da mesma forma que o Sigur Rós - de sonoridade não muito distante da Enya - também pode ser chamado de progressivo. Na minha opinião, o som de Enya agradaria ainda mais os ouvintes da eletrônica "clássica"/progressiva.

Se há uma crítica a ser feita à carreira de Enya, que passou a marca dos 20 anos, é a aparente imutabilidade de seu estilo. A cada álbum, nota-se pouca ou nenhuma mudança. No entanto, a fórmula de sucesso é tão rica e irresistível que é como se a cada 5 anos o mesmo perfume clássico fosse lançado, com outro nome.

Enya admite ser uma lenta compositora; além disso, a meticulosa produção fazem com que os lançamentos sejam raros, em média a cada 5 anos. Isto faz com que a discografia seja pequena e fácil de conhecer, inclusive porque hoje em dia não é difícil encontrar os álbuns a bom preço, na faixa dos 15 reais, em promoções de grandes lojas ou em lojas de usados.

Um bom lugar pra começar é a coletnea Paint the Sky With Stars, de 1997, que traz as mais conhecidas como "Orinoco Flow", "Book of Days", "Caribbean Blue", entre outras, além de duas faixas inéditas. Como ouvinte de progressivo, eu recomendo começar pelo primeiro álbum, um apanhado da trilha sonora composta para uma série de TV, "The Celts" (1987). Este é ainda mais eletrônico e instrumental, mas já anuncia o estilo que apareceria mais maduro em "Watermark" (1988) e a partir daí continuaria por todos os seus álbuns, todos de igual qualidade. Os meus preferidos pessoais são os três primeiros; eu diria que estes são ligeiramente melhores que os outros.

Discografia - estúdio:

The Celts (1987, relançado em 1992, originalmente intitulado "Enya")
Watermark (1988)
Shepherd Moons (1991)
The Memory of Trees (1995)
A Day Without Rain (2000)
Amarantine (2005)

Coletnea:
Paint the Sky With Stars (1997)

Gustavo Jobim
abril/2008


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